terça-feira, 13 de outubro de 2015

Anúbis

Querida Jade, as vezes tenho a impressão que com o passar do anos, ao invés de encurtarem ou se tornarem corriqueiros eles se delongam e custam a passar. A finalização da roda e as apresentações dos príncipes ainda parece muito distante. Aguardo ansioso minha viagem à Terra Prometida no próximo ciclo. Alberto diz estar animado com a viagem, mesmo sem saber se vai ou não e por isto me olha como um cachorro pedinte para que eu avalie sua dedicação durante este ano. Fico pensando nestas minhas mãos enrugadas e como eu amava caminhar pelos Jardins da cidade nos anos que.... é melhor parar por aqui, reminiscências me trazem dor pelos que já partiram. Conto-te então a história do que te persegue.

Estávamos todos ansiosos para a apresentação da banda, mas era necessário comprar ingressos. Fico espantado como as pessoas vendem ingressos no restaurante do ICHS. Eram duas filas, uma para comer, a que eu entrei, e a outra para comprar o ingresso. Andava normal e falava normal, mas via a realidade como um bêbado. Soube no mesmo momento que estava na Onirion. É engraçado quando se está lá e se percebe dentro. O mundo muda. Olhei para as minhas mãos que não pareciam corrompidas pela idade e sim jovens além de estranhamente brancas. Entrei na primeira porta a direita, já que na Onirion a primeira coisa a se fazer quando se vai a algum lugar é virar na primeira a direita. Andei pelas vielas, e cheguei até uma casa, ela estava bagunçada e não havia lâmpadas, apenas a luz do sol, que entrava pelas janelas. Alguns móveis velhos estavam empilhados. Perto de mim alguns camelos passavam. Eu continuei explorando quando ouvi um barulho. Inicialmente pensei que eram ratos, mas logo percebi que se tratava de um humano, careca, pintado com tintas metalizadas douradas e roxas. Ele estava no fundo do cômodo, se concentrando e olhando para o infinito acima. Eu me lembrava vagamente daquilo, entendia o que ele estava fazendo e limites estavam sendo cruzados e sempre que alguns limites são cruzados os resultados nunca foram benéficos à humanidade. Um jarro de barro, que eu sabia ser um Bah, recebeu um smartphone, um HD externo e foi fechado. O homem então passa uma adaga ritual na mão e com seu sangue sela o Bah. 
           Neste momento um gato  pulou perto de onde eu estava, eu me assutei e fiz barulho. O homem olhou na minha direção. Quis o Universo que eu estivesse no escuro e escondido entre as tralhas da casa o que, acredito eu, fez o homem pensar que eu era um rato ou até mesmo o gato e continuar seu ritual. Prendi meu cabelo e silenciei a respiração, aquilo estava indo longe demais. Os movimentos que o homem pintado fazia pareciam muito bem ensaiados, era um ritual fatal, eu sabia disto, mas não entendi onde ele queria chegar. Por uma janela ao longe eu pude ver que um crocodilo se aproximava. Havia elementos demais, sim, elementos egípcios! Era um ritual de mumificação e o limite a ser quebrado era entre a vida e a morte. O desespero tomou conta de mim quando o homem vira para si a adaga ritual e enfia no peito, perfurando seu coração. Em meio a dor ele cai sobre o círculo, diz algumas palavras e seus olhos estão cerrados. Eu me levanto, vou em direção a ele, sei que há pouco tempo. Um papiro antigo está sobre a mesa. Uma palmeira do lado de fora da casa. Eu me concentro. A magia das areias brancas, o sol sob as nossas cabeças, a palmeira mostrando a perseverança da vida. Eu impus minha mão sobre o ferimento, uma anel estranho estava nela. mas não tinha tempo para pensar nisto, eu era um canal da vida, um fonte de regeneração. As células cresciam e se ligavam pelos desmossomos, fibras musculares eram montadase o coração voltou a bater. Era ensurdecedor.
     Agora respirando mais calmamente, antes que a cicatriz se formasse recolhi a adaga ritual e o papiro cheio de hieróglifos. O que eu vi no espelho, porém me desconcertou. A pessoa refletida não era eu. Porém não era hora de eu entender isto. No corpo estandido ao lado a morte tomava conta e nos braços e pernas bandagens de múmia apareciam. a gaze se enrolava mas recebia resistência da vida da palmeira que eu havia canalizado para o corpo do homem. Do lado de fora a palmeira seca era só uma sombra de seus dias de glória. Saí correndo. atrás de mim o homem acordava descobrindo que estava vivo e percebia que o ritual que ele fez estará em finalização pelo resto de sua existência. O poder alcançado sob um custo tão alto nunca estaria acessível para si. Em vão, ele procurava quem havia feito aquilo pois só a partir do momento que a fonte canalizadora de energia vital dele secasse ele estaria livre para morrer e se tornar a múmia que tanto sacrificou para ser. Abriu o Bah, pegou sua existência terrena, encerrada em aparelhos eletrônicos banais. E saiu em perseguição. Porém ele não vinha atrás de mim. Ele está perseguindo você.   

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Vorme Escoriáceo


Querido Maks, após a lua se tornar sangue pela quarta vez em um ano, parece que o Poder voltou a fluir. Não sei se pelo evento ou se pela Esperança que todos depositaram. Mudar de cidade tem seus efeitos benéficos. A maresia me dá calma e a certeza que vocês todos passarão e mesmo assim a maré vai baixar e levantar. Mas já me perco... Conto o que ocorreu antes disto.
               Eu caminhava livremente por uma paisagem desértica, não era um deserto de verdade, havia um fio d’agua que corria, impressionantemente, não cresciam flores em suas encostas, mas dava pra ver que era um rio velho. Lílian parecia sedenta, chegou feliz ao ver as águas, pegou um pouco para beber, mas as águas eram amargas. Lílian não entendeu a ironia do destino. Eu não entendia o sentido daquilo, pois neste dia, caminhava consciente, sem o apoio de Alberto.Olhei para a direita e reconheci o casal de amigos, ela, que agora se afirmava orgulhosamente como ela e ele, hoje velho, mas jovem. Uma equipe de médicos tentava salvá-lo fazendo-o entrar na casa em cima do morro, onde as portas eram onde ficariam as janelas.
Não me satisfiz, entrei na sala para jantar e minha intuição me revelou a presença desses membros de ordens obscuras e triangulares, coisas goréticas. Uma mulher entupida de suas conspirações, pregava a volta de seu deus e culpava os triangulares pela situação do mundo. Saí da casa sem ao menos comer e uma mulher me contou a história do deserto, talvez assim as coisas fariam sentido para Lílian.
                Um estrangeiro viajava pelo deserto e encontrou terra fértil. Estava feliz pois poderia repousar ou comer, esperava que aquela terra fosse hospitaleira. Uma casa simples ele avistou.Nela havia um criadouro de porcos e duas irmãs cuidavam deles. Quando o estrangeiro chegou encontrou primeiro a irmã mais velha e perguntou se ela poderia ensinar hebraico pra ele. E qual era o nome das irmãs dela. A zombeteira disse o nome dos porcos que cuidava, como se fossem o nome das irmãs e irmãos que ela tinha. Ele se interessou pelo nome de uma delas: Sassena. A mais nova então trouxe uma porca, segurando-a pelo focinho e rindo gritou ameaçadoramente “é esta aqui, agora corra estrangeiro amaldiçoado!” O estrangeiro ficou perplexo. E mais ainda ficou quando um grande vorme, como uma minhoca subiu da terra, comeu a casa,  a casa dos porcos, a menina mais nova e a doce Sassena. Ficaram a mais velha e o estrangeiro intactos, porém cobertos de lama.
          O vorme comia e urinava no mundo, formando um pequeno córrego. O estrangeiro se lembrou de histórias mais velhas que esta e descansou. A garota mais velha, porém resolveu que tinha que vingar seus pais, que estavam dentro da casa. Fortalecida pela vingança, ela se concentrou e verificou que o vorme tinha uma roupa, perguntou ao estrangeiro o que era aquilo e ele disse que o vorme também já foi uma serpente no mundo. E recebeu uma roupa abençoada, para que suas excretas permitissem a vida, purificando a urina do vorme criador de rios. O vorme comia pessoas, casas, pequenas cidades (cadeia alimentar não é mesmo?) e era muito justo e religioso, cantava louvores a Quem Criou o Mundo e isto purificava a urina dele. A menina então tirou a roupa dele enquanto ele dormia digerindo sua última refeição e foi embora, levando o artefato sagrado. O vorme, sem saber o que fazer se afundou no Mar Morto e o que saía dele se tornou amargo e improdutivo. E as terras viraram deserto. Voltei minha atenção à mulher e ela me disse: “Agora vou te dizer onde você deve procurar o purificador das águas.” Mas eu lembrei que ainda não havia jantado. Me levantei agradeci a história e fui jantar.