Querido Maks, após a lua se tornar sangue pela quarta vez em
um ano, parece que o Poder voltou a fluir. Não sei se pelo evento ou se pela
Esperança que todos depositaram. Mudar de cidade tem seus efeitos benéficos. A
maresia me dá calma e a certeza que vocês todos passarão e mesmo assim a maré
vai baixar e levantar. Mas já me perco... Conto o que ocorreu antes disto.
Eu caminhava livremente por uma paisagem desértica, não era um
deserto de verdade, havia um fio d’agua que corria, impressionantemente, não
cresciam flores em suas encostas, mas dava pra ver que era um rio velho. Lílian
parecia sedenta, chegou feliz ao ver as águas, pegou um pouco para beber, mas
as águas eram amargas. Lílian não entendeu a ironia do destino. Eu não entendia
o sentido daquilo, pois neste dia, caminhava consciente, sem o apoio de
Alberto.
Olhei para a direita e reconheci o casal de amigos, ela, que
agora se afirmava orgulhosamente como ela e ele, hoje velho, mas jovem. Uma
equipe de médicos tentava salvá-lo fazendo-o entrar na casa em cima do morro,
onde as portas eram onde ficariam as janelas.
Não me satisfiz, entrei na sala para jantar e minha intuição
me revelou a presença desses membros de ordens obscuras e triangulares, coisas
goréticas. Uma mulher entupida de suas conspirações, pregava a volta de seu
deus e culpava os triangulares pela situação do mundo. Saí da casa sem ao menos
comer e uma mulher me contou a história do deserto, talvez assim as coisas
fariam sentido para Lílian.
Um
estrangeiro viajava pelo deserto e encontrou terra fértil. Estava feliz pois
poderia repousar ou comer, esperava que aquela terra fosse hospitaleira. Uma
casa simples ele avistou.Nela havia um criadouro de porcos e duas irmãs
cuidavam deles. Quando o estrangeiro chegou encontrou primeiro a irmã mais velha
e perguntou se ela poderia ensinar hebraico pra ele. E qual era o nome das irmãs
dela. A zombeteira disse o nome dos porcos que cuidava, como se fossem o nome
das irmãs e irmãos que ela tinha. Ele se interessou pelo nome de uma delas:
Sassena. A mais nova então trouxe uma porca, segurando-a pelo focinho e rindo
gritou ameaçadoramente “é esta aqui, agora corra estrangeiro amaldiçoado!” O
estrangeiro ficou perplexo. E mais ainda ficou quando um grande vorme, como uma
minhoca subiu da terra, comeu a casa, a
casa dos porcos, a menina mais nova e a doce Sassena. Ficaram a mais velha e o
estrangeiro intactos, porém cobertos de lama.
O vorme comia e urinava no mundo, formando um pequeno
córrego. O estrangeiro se lembrou de histórias mais velhas que esta e
descansou. A garota mais velha, porém resolveu que tinha que vingar seus pais,
que estavam dentro da casa. Fortalecida pela vingança, ela se concentrou e
verificou que o vorme tinha uma roupa, perguntou ao estrangeiro o que era
aquilo e ele disse que o vorme também já foi uma serpente no mundo. E recebeu
uma roupa abençoada, para que suas excretas permitissem a vida, purificando a
urina do vorme criador de rios. O vorme comia pessoas, casas, pequenas cidades
(cadeia alimentar não é mesmo?) e era muito justo e religioso, cantava louvores
a Quem Criou o Mundo e isto purificava a urina dele. A menina então tirou a
roupa dele enquanto ele dormia digerindo sua última refeição e foi embora,
levando o artefato sagrado. O vorme, sem saber o que fazer se afundou no Mar
Morto e o que saía dele se tornou amargo e improdutivo. E as terras viraram
deserto. Voltei minha atenção à mulher e ela me disse: “Agora vou te dizer onde
você deve procurar o purificador das águas.” Mas eu lembrei que ainda não havia
jantado. Me levantei agradeci a história e fui jantar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário