segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Vorme Escoriáceo


Querido Maks, após a lua se tornar sangue pela quarta vez em um ano, parece que o Poder voltou a fluir. Não sei se pelo evento ou se pela Esperança que todos depositaram. Mudar de cidade tem seus efeitos benéficos. A maresia me dá calma e a certeza que vocês todos passarão e mesmo assim a maré vai baixar e levantar. Mas já me perco... Conto o que ocorreu antes disto.
               Eu caminhava livremente por uma paisagem desértica, não era um deserto de verdade, havia um fio d’agua que corria, impressionantemente, não cresciam flores em suas encostas, mas dava pra ver que era um rio velho. Lílian parecia sedenta, chegou feliz ao ver as águas, pegou um pouco para beber, mas as águas eram amargas. Lílian não entendeu a ironia do destino. Eu não entendia o sentido daquilo, pois neste dia, caminhava consciente, sem o apoio de Alberto.Olhei para a direita e reconheci o casal de amigos, ela, que agora se afirmava orgulhosamente como ela e ele, hoje velho, mas jovem. Uma equipe de médicos tentava salvá-lo fazendo-o entrar na casa em cima do morro, onde as portas eram onde ficariam as janelas.
Não me satisfiz, entrei na sala para jantar e minha intuição me revelou a presença desses membros de ordens obscuras e triangulares, coisas goréticas. Uma mulher entupida de suas conspirações, pregava a volta de seu deus e culpava os triangulares pela situação do mundo. Saí da casa sem ao menos comer e uma mulher me contou a história do deserto, talvez assim as coisas fariam sentido para Lílian.
                Um estrangeiro viajava pelo deserto e encontrou terra fértil. Estava feliz pois poderia repousar ou comer, esperava que aquela terra fosse hospitaleira. Uma casa simples ele avistou.Nela havia um criadouro de porcos e duas irmãs cuidavam deles. Quando o estrangeiro chegou encontrou primeiro a irmã mais velha e perguntou se ela poderia ensinar hebraico pra ele. E qual era o nome das irmãs dela. A zombeteira disse o nome dos porcos que cuidava, como se fossem o nome das irmãs e irmãos que ela tinha. Ele se interessou pelo nome de uma delas: Sassena. A mais nova então trouxe uma porca, segurando-a pelo focinho e rindo gritou ameaçadoramente “é esta aqui, agora corra estrangeiro amaldiçoado!” O estrangeiro ficou perplexo. E mais ainda ficou quando um grande vorme, como uma minhoca subiu da terra, comeu a casa,  a casa dos porcos, a menina mais nova e a doce Sassena. Ficaram a mais velha e o estrangeiro intactos, porém cobertos de lama.
          O vorme comia e urinava no mundo, formando um pequeno córrego. O estrangeiro se lembrou de histórias mais velhas que esta e descansou. A garota mais velha, porém resolveu que tinha que vingar seus pais, que estavam dentro da casa. Fortalecida pela vingança, ela se concentrou e verificou que o vorme tinha uma roupa, perguntou ao estrangeiro o que era aquilo e ele disse que o vorme também já foi uma serpente no mundo. E recebeu uma roupa abençoada, para que suas excretas permitissem a vida, purificando a urina do vorme criador de rios. O vorme comia pessoas, casas, pequenas cidades (cadeia alimentar não é mesmo?) e era muito justo e religioso, cantava louvores a Quem Criou o Mundo e isto purificava a urina dele. A menina então tirou a roupa dele enquanto ele dormia digerindo sua última refeição e foi embora, levando o artefato sagrado. O vorme, sem saber o que fazer se afundou no Mar Morto e o que saía dele se tornou amargo e improdutivo. E as terras viraram deserto. Voltei minha atenção à mulher e ela me disse: “Agora vou te dizer onde você deve procurar o purificador das águas.” Mas eu lembrei que ainda não havia jantado. Me levantei agradeci a história e fui jantar.

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